Quando era uma simples criança no recreio, via com os olhos acobardados os outros meninos a brincarem em grupos e desejava para mim de forma secreta e ávida, também um dia vir a ter uma amiga enquanto me distraía no tempo de sobra, e com mãos pequenas mas papudas, que as sempre tive, desenterrava mais na terra uma solidão que não podia explicar. Mas que cabia em mim. Com gestos vários e irregulares com a ajuda de um ancinho. Até a campaínha soar e interromper aquele pedaço de tempo sonâmbulo para voltar de bibe encardido e unhas entranhadas de terra à sala de aula. Estava na primeira classe e nem sequer sabia como brincar, nem sozinha, nem acompanhada. Vivia num imenso grão de poeira encolhida em timidez e retraimento.
Um dia a meu lado apercebi me de uma menina que também escavava algo e que tal como eu parecia habituada a ser solitária. Falei com ela e travei a primeira ligação de muitas que sempre procurei em vão corresponder ao meu sonho de criança. Impulsos desordenados e desesperados na busca incessante de te encontrar. A minha melhor amiga. Uma irmã não de sangue, mas de substância. Companheira de vida. Para a vida.
Vieram nos verdes anos, e foram-se substituindo depressa, umas atrás de outras, com o esquecimento que procede à mágoa de laços fracassados e porque enfim em cada amiga falhada havia uma que se se procurava. Com o lirismo próprio e temperamento arrebatados da juventude.
Há 15 anos que te conheci. Não gostei logo de ti. Mas depois de quebrado o gelo, fomos ganhando pé nos interesses que partilhavamos, e com o instinto destas coisas edificámos uma amizade cúmplice e forte à prova de fogo, que é no fundo o tempo, na galhofeira e na loucura das alegrias que curtimos e nos suspiros e soluços dos pesares que nos afligiram. E nem a minha falta de responsabilidade abrutalhada e bronca por esta amizade, durante o tempo em que estive demasiado ausente da vida por uma malignidade e vileza febris, desmereceu a grande complacência por esta relação que viemos estreitando. Sempre a protegeste, com altivez de quem perdoa com toda a disponibilidade do coração humano. Nunca me abandonaste e mesmo se não concordavas não te metias nisso, respeitando tudo o que era, mesmo o que tinha de megera e de bruxa. Sempre foste correcta e sensível, sempre um porto de abrigo, um abraço apertado, uma palavra de conforto, um tempo para dedicar, uma ajuda preciosa. Em cada gesto da grandeza que se sobrepõe à tua personalidade com esse à-vontade de ser a coisa mais banal, eu fico sem palavras, e com uma comoção e orgulhos que se me agigantam no peito a pontos de explodir e que me surpreende ainda uma vez e outra vez. E eu que sou uma moça de grandes choros e risos, de extremo a extremo nestas coisas emotivas, às vezes faço uma às vezes outra, comforme o desvairo da altura, porque sou uma tola-sei-o. E não consigo expressar tudo isto por palavras faladas para serem ouvidas, sem ser um adoro-te e um bem haja que estão coçados e gastos como uma mesma passadeira de veludo (para os últimos 15 anos de cerimónia dos óscares) que tenha colocado lá para ti, mas que já soa a caixa de esmolas e eu julgo te bem mais do que pedinte. Tenho braços de pensamentos que nunca se abriram e que te alcançam todos os dias e que encerram um cumprimento, um gesto, um reconhecimento, uma homenagem. O retrato de ti. O que entendo da nossa amizade. Porque os sentimentos são tão dificeis de descrever e não se me arrancam todas as palavras necessárias.
ÉS A MINHA MELHOR AMIGA, A IRMÃ QUE AGORA TENHO E UMA DAS PESSOAS MAIS LINDAS QUE ALGUMA VEZ CONHECI. TENHO UM ORGULHO IMENSO EM TI. QUERO QUE SAIBAS QUE TE QUERO FELIZ, SEMPRE. QUE TE AMO COM UMA SINCERIDADE IMPETUOSA. PORQUE A AMIZADE É A FORMA MAIS PURA DE AMOR.
Esta amizade tem finalmente figura humana e tem o teu nome. É este afecto que eu sinto. que se ergueu da terra da fina poeira e que não se cauteriza pelo fogo, nem a afasta o vento, nem a desfaz a água, e que só se apagará em definitivo na terra quando nenhuma das duas já cá estiver....

2 comentarii:
E dizes tu que te impressionas com o que os outros escrevem... Não te esqueças de olhar para o que tens.
Um texto lindo. O recipiente senti-lo-á com certeza.
Homenagem fantástica...
Há muito tempo que não lia nada assim...
Fez-me pensar que deveria dizer mais vezes aos outros, o quanto gosto deles...
R
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